Bases da mindfulness
Texto por Katya Stübing
Num mundo dedicado à distração, o silêncio e a quietude nos aterrorizam. (Sogyal Rinpoche, 1987)
Meditação como treinamento mental
A meditação pode ser compreendida como um treinamento mental estruturado, que tem como objetivo estabilizar a mente e desenvolver a capacidade de sustentar a atenção de forma voluntária, focada e, ao mesmo tempo, relaxada.
Práticas meditativas estão presentes em diferentes tradições culturais e religiosas, especialmente nas tradições contemplativas do Oriente, que desenvolveram métodos sistemáticos para o cultivo da atenção e da consciência.
Do ponto de vista contemporâneo, essas práticas vêm sendo estudadas e aplicadas em contextos de saúde, educação e desenvolvimento humano, com resultados consistentes na redução do estresse e na melhora da regulação emocional.
O que caracteriza uma prática de meditação
Para fins científicos e clínicos, Roberto Cardoso e colaboradores propuseram critérios operacionais para definir o que caracteriza uma prática meditativa. Entre eles, destacam-se:
- A existência de uma técnica específica, com instruções claras
- A presença de uma âncora de atenção (como respiração, corpo ou sons)
- O desenvolvimento de relaxamento físico
- O cultivo de um estado mental não analítico, com menor julgamento
- A possibilidade de um estado autoinduzido, que pode ser reproduzido pelo praticante
Esses elementos ajudam a diferenciar a meditação de outras formas de relaxamento ou introspecção.
Mindfulness: uma habilidade desenvolvida pela meditação
Dentro desse campo, a mindfulness não é uma técnica em si, mas uma habilidade humana.
Trata-se da capacidade de prestar atenção ao momento presente com uma atitude específica, que envolve abertura, curiosidade e menor julgamento.
Essa habilidade é cultivada por meio de diferentes práticas meditativas. Em outras palavras:
- a meditação é o treino
- a mindfulness é a habilidade desenvolvida
Raízes contemplativas: o conceito de sati
O termo mindfulness tem origem na palavra sati, das tradições budistas.
Em seu sentido original, sati refere-se à capacidade de manter a mente presente, sem se esquecer da experiência que está acontecendo, sustentando uma atenção contínua sobre corpo, mente e ambiente.
Um dos textos clássicos que sistematiza esse treinamento é o Satipatthana Sutta, que descreve quatro campos principais de cultivo da atenção:
- Corpo e respiração
- Sensações e emoções
- Estados mentais
- Fenômenos da experiência
Essa progressão não é apenas teórica — ela orienta uma forma de desenvolvimento da prática, que parte do mais concreto para o mais sutil.
Do treinamento atencional à compreensão da experiência
Nas tradições contemplativas, esse desenvolvimento costuma ser descrito em duas etapas complementares:
- Shamatha: estabilização da atenção e tranquilização da mente
- Vipassana (vipashyana): investigação da experiência e desenvolvimento de insight
A mindfulness é cultivada ao longo de todo esse processo — primeiro como estabilização da atenção e, posteriormente, como base para uma compreensão mais profunda da experiência.
Mindfulness na ciência contemporânea
Na psicologia e na pesquisa científica, a mindfulness foi operacionalizada como um construto que envolve diferentes componentes.
Um dos modelos mais influentes é o de Scott Bishop e colaboradores, que descreve dois elementos principais:
- Regulação da atenção
- Orientação da atitude (abertura, curiosidade, aceitação)
Posteriormente, Shauna Shapiro e colegas ampliaram essa compreensão, incluindo um terceiro elemento:
- Intenção
Esses três aspectos — atenção, atitude e intenção — interagem dinamicamente e ajudam a explicar os efeitos observados na prática.
Aplicações contemporâneas
A partir dessas bases, foram desenvolvidos diferentes programas estruturados baseados em mindfulness, que integram práticas meditativas a modelos psicológicos contemporâneos.
O primeiro e mais influente deles foi o MBSR (Mindfulness-Based Stress Reduction), desenvolvido por Jon Kabat-Zinn, que serviu de base para a criação de outras abordagens amplamente utilizadas, como o MBCT (Mindfulness-Based Cognitive Therapy).
Com o avanço das pesquisas e das aplicações clínicas, novos programas foram sendo desenvolvidos, mantendo os fundamentos da mindfulness, mas propondo estruturas didáticas próprias e adaptações para diferentes contextos.
Entre eles, podemos destacar:
- o Body in Mind Training (BMT), de Tamara Russell, que integra movimento e práticas contemplativas
- o Healthy Minds Program, de Richard J. Davidson, com base em pesquisas em neurociência afetiva
- o Aware, de Daniel J. Siegel, que articula mindfulness com integração interpessoal e neurobiologia
Dentro desse cenário, desenvolvi o Treinamento em 8 Sessões de Mindfulness (T8SM), um protocolo que integra:
- treinamento progressivo da atenção
- fundamentos da psicologia
- e experiência clínica em diferentes níveis de sofrimento
O T8SM foi estruturado para oferecer um caminho acessível, gradual e aplicável à vida cotidiana, mantendo diálogo com a tradição contemplativa e com a ciência contemporânea.
Essa diversidade de programas reflete um ponto importante:
embora os fundamentos da mindfulness sejam comuns, as formas de ensino e aplicação continuam em desenvolvimento, acompanhando as necessidades dos diferentes contextos em que são utilizadas.
Uma síntese
A mindfulness pode ser compreendida como uma habilidade que emerge do treinamento sistemático da atenção.
Ao ser cultivada, ela permite:
- maior estabilidade mental
- maior clareza perceptiva
- menor reatividade automática
- uma relação mais consciente com pensamentos e emoções
Mais do que um estado passageiro, trata-se de um processo de desenvolvimento, que se aprofunda com a prática.
Referências
Jon Kabat-Zinn
Kabat-Zinn, J. (1990). Full catastrophe living: Using the wisdom of your body and mind to face stress, pain, and illness. New York: Delacorte.
Jon Kabat-Zinn
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Scott Bishop et al.
Bishop, S. R., Lau, M., Shapiro, S., Carlson, L., Anderson, N. D., Carmody, J., … Devins, G. (2004). Mindfulness: A proposed operational definition. Clinical Psychology: Science and Practice, 11(3), 230–241. https://doi.org/10.1093/clipsy.bph077
Shauna Shapiro et al.
Shapiro, S. L., Carlson, L. E., Astin, J. A., & Freedman, B. (2006). Mechanisms of mindfulness. Journal of Clinical Psychology, 62(3), 373–386. https://doi.org/10.1002/jclp.20237
Roberto Cardoso et al.
Cardoso, R., de Souza, E., Camano, L., & Leite, J. R. (2004). Meditation in health: An operational definition. Brain Research Protocols, 14(1), 58–60. https://doi.org/10.1016/j.brainresprot.2004.09.002
B. Alan Wallace
Wallace, B. A. (2006). The attention revolution: Unlocking the power of the focused mind. Boston: Wisdom Publications.
Daniel Goleman
Goleman, D. (2013). The meditative mind: The varieties of meditative experience. Boston: Shambhala.
Soma Thera
Thera, S. (1998). The way of mindfulness: The Satipatthana Sutta and its commentary. Kandy: Buddhist Publication Society.


